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Anvisa vai criar regras para cultivo de maconha medicinal

Após liberar o uso de produtos à base de canabidiol por pacientes e aprovar o primeiro medicamento com THC no país, dois dos derivados da maconha, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) planeja dar mais um passo em relação ao uso da planta para fins medicinais.

Até o fim deste ano, a agência vai elaborar uma norma para regular o cultivo da Cannabis para pesquisas e produção de extratos ou futuros medicamentos.

Desde 2006, a lei 11.343 prevê a possibilidade de autorização para esses dois casos. A falta de regulamentação sobre o tema, porém, acaba por impedir o processo.

O pontapé "oficial" para a regulamentação deve ser deliberado pelos diretores até o fim de agosto, segundo informações obtidas pela Folha.

Para elaborar a norma, a agência tem feito missões internacionais e coletado informações em países como EUA, Canadá, Inglaterra, Holanda e Israel. Também já houve reunião com o Ministério da Justiça e a Polícia Federal.

Segundo o diretor-presidente da Anvisa, Jarbas Barbosa, a ideia é estabelecer critérios como a quantidade de plantas permitidas para cultivo e medidas de segurança que devem ser adotadas.

O plantio, porém, não seria liberado para a população. Inicialmente, a intenção é que essa autorização ocorra apenas para laboratórios públicos, empresas e universidades, por exemplo, com acompanhamento de órgãos reguladores e de segurança.

Associações de pacientes, no entanto, poderiam fazer parcerias com universidades para ter acesso e acompanhamento, afirma Barbosa.

Outro ponto em discussão, segundo a Folha apurou, é a possibilidade de haver um edital com regras para empresas interessadas no cultivo e produção de óleos e extratos à base de canabinoides. As empresas venderiam diretamente ao paciente, mediante acompanhamento da agência –modelo semelhante ao do Canadá.

Hoje, parte dos pacientes que utilizam derivados da Cannabis no tratamento importam produtos de outros países, em especial óleos extratos ricos em canabidiol, substância reconhecida pelos efeitos terapêuticos.

Outros recorrem à Justiça para obter autorizações para o cultivo e produção de extratos ou o fazem de forma ilegal.

PESQUISA

A proposta de regular o plantio nos moldes previstos na lei coincide com o aumento nos pedidos de autorização para novos estudos no país com a Cannabis.

Em 2016, foram quatro novos pedidos recebidos. Em 2014 e 2015, foram dois ao todo e nenhum em 2013.

O aval, porém, refere-se apenas às outras etapas – sem as regras, o cultivo é vetado. Para acesso à planta, é necessário obter por importação ou doação previamente autorizadas (caso de apreensões, por exemplo).

Professora-adjunta de farmácia e coordenadora do projeto Farmacannabis na UFRJ, Virgínia Carvalho diz que a falta de uma norma específica sobre o cultivo da Cannabis gera entraves à pesquisa no país. "Para qualquer substância ilícita, é uma dificuldade. Muitos vão começar a estudar e veem tantas dificuldades e burocracia que até desistem", afirma ela, que realiza estudos com a maconha e outras drogas desde 2004.

Segundo Carvalho, o ideal seria que houvesse a regulamentação também da produção para pacientes. "Se não regularem de forma real, o paralelo ainda vai ocorrer, que é mães e pais [de crianças com epilepsia e outras doenças] continuarem plantando ilegalmente", diz.

Visão semelhante tem Emílio Figueiredo, advogado da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas. Para ele, é preciso cuidado para que a regulamentação não seja uma "via limitada" com monopólio às empresas e sem participação da sociedade. "É uma boa prática que tenha uma parceria de associações [de pacientes] com universidades, mas não pode se limitar a isso."

Barbosa diz que a regulamentação deve acelerar as pesquisas de futuros medicamentos a partir da planta. "Há empresas com interesse porque a importação é cara."

Uma delas é a start-up Entourage Phytolab, que planeja desenvolver, em parceria com a Unicamp, o primeiro fitoterápico à base de maconha no país.

No último ano, a empresa importou 10 kg de maconha do Canadá e da Holanda para iniciar os estudos. "Foi a solução que encontramos para acelerar o desenvolvimento, mas isso implica em um custo alto. A regulamentação vai baratear esse processo", afirma.

 

Fonte: Folha de S. Paulo














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